Publicado em Meditações

O Pastor


O Pastor

A igreja nasceu numa garagem. Isso mesmo, numa garagem após oito anos de semeadura. O missionário, havia recebido esta missão, de plantar uma igreja nessa região. Foram oito anos sem sucesso nenhum. O contexto não foi favorável, mesmo por um esforço dobrado que o missionário tenha exercido naquele momento. Em contato com a igreja mantenedora, após algumas reuniões, resolveu sair daquela região. No dia da sua saída, malas prontas, o carro quebrou. Uma região sem recursos. Orou para que Deus lhe desse um “escape”.

Aparece no seu portão, um mecânico. Ele havia mudado para a região, um dia antes. Buscava clientes. Encontrou o missionário com uma necessidade que ele poderia suprir. O mecânico, era casado, um homem muito sério e que tinha três filhas. Muito sedento por conhecer a Palavra de Deus. Quando viu a Bíblia no carro do missionário, imediatamente o convidou para um lanche em sua casa. E, não parava de perguntar sobre vários assuntos.

O missionário, começou lhe ensinando, através das respostas diante das perguntas que o mecânico fazia. Assim, adiou sua volta por mais uns dias. Mas, o missionário já havia confirmado a sua saída da região. A sua preocupação aumentou, pois nas reuniões na casa do mecânico teria atraído alguns vizinhos. Já era mais ou menos, seis famílias. O convite já tinha sido confirmado pelo missionário, pois estava indo morar perto das universidades – onde seus filhos passariam a estudar.

Com a saída do missionário, a igreja mantenedora, resolveu enviar um pastor que havia sido por dois anos auxiliar de uma excelente igreja. Ele havia saído da faculdade, antes de assumir. O convite foi aceito e o pastor foi para a região indicada pelo missionário. Antes da sua saída, o Pastor recebeu muitas orientações pelo capelão da faculdade – ele havia sido missionário na Índia por mais de trinta anos.

Chegando na região, o Pastor, entendeu que o trabalho do missionário, por oito anos, não teria sido inútil. Com uma lista de contatos do missionário a mão, passou a visitar cada família. A primeira família a ser visitada era a do mecânico.

Através da família do mecânico, mais seis famílias. Foram vários encontros. Aniversários. Pic-nics próximo ao lago, muito próximo, onde mais tarde seria a igreja.

Logo no primeiro ano de pastoreio, ocorreram três situações difíceis ao mesmo tempo na família do mecânico. A morte do seu pai, por atropelamento. Na mesma época em que se descobre que sua filha do meio, estaria grávida, ainda na adolescência. Na semana em que o mecânico havia sido eleito o primeiro diácono da igreja nascente. Sua reação, foi muito interessante. Na reunião de domingo, ainda na sua casa, se apresentou aos membros da igreja, dizendo-se inapto para o diaconato, pois, seu pai havia morrido, sem conhecer a Cristo. E, o mesmo não era competente para governar a própria casa, pois sua filha adolescente havia engravidado antes do casamento. Com grande temor, a igreja nascente aceita a decisão do mecânico e elege outro membro para o diaconato.

Com muita vergonha, o casamento da filha do meio do mecânico, foi feito às pressas.

O Pastor, entendeu que a pequena igreja nascente, não tinha conhecimento sobre o casamento sob o olhar de Deus. Iniciou um estudo sobre o casamento que atraiu muitas pessoas. Durante o estudo, um jovem se destacou dentre os outros – era o jovem marido da filha do meio do mecânico. Este jovem, mais tarde, se tornou o vice-moderador da igreja, e depois foi o Zelador. Desde aquele momento, suas palavras atraiam as pessoas. Realmente Deus usou aquele jovem – era um homem de oração.

Após dois anos, sem explicação o jovem deixa de participar das reuniões e dos programas da igreja. Somente sua esposa, continua envolvida. Uma equipe de visitação é composta com a finalidade de visitá-lo. Ele os recebe muito bem e comenta que está empregado em uma empresa de transporte e precisa viajar a trabalho. Diz que em alguns meses, isso tudo irá mudar – mas, não ocorrerá, pois seu retorno se dará após trinta anos.

A igreja, nesse tempo se reunia num local bem pequeno, era uma sala que antigamente teria sido uma barbearia. Era estranho pois tinha enormes espelhos. Às vezes as crianças, atrapalhavam os cultos, pois ficavam fazendo caretas nos espelhos. Tinham algumas cadeiras de madeira, sendo que uma era diferente da outra. Dois caixotes, encapados por um belo tecido era o púlpito. A cada dia o Senhor fazia aquela família da fé prosperar.

O que era estranho é que as famílias se fecharam. O Pastor insistia pela hospitalidade, mas, quando alguém ia visitar a igreja, ao sair os membros diziam, “volte sempre”, ou ainda, “obrigado pela sua visita”. E, as pessoas não voltavam mais. Havia um distanciamento e um estranhamento quanto a pessoas que visitavam a igreja naquele período. Muita resistência.

Durante os primeiros dez anos, houve uma grande resistência em formar grupos familiares. Embora o Pastor houvesse trazido e proporcionado uma intensa programação, com encontros, treinamentos, etc, ainda havia muita resistência. Porém, a grande saída, foi através das crianças, que convidavam seus amiguinhos e estes traziam seus pais. Nesta época, a igreja já alcançava sessenta famílias.

As festas dos batismos ficaram mais dinâmicas na segunda década. Os cultos ficaram mais vibrantes, pois, eles lotavam um antigo cinema da cidade. A inflação era muito alta. A produção de filmes nacionais muito baixas. Impostos altos e a baixa freqüência. Os cinemas não suportaram e fecharam as portas. Os cinemas possuíam as estruturas ideais para as igrejas – mesmo formato de um templo. Com algumas vantagens, altura, palco, iluminação, inclinação e poltronas. Outra vantagem, a acústica perfeita sem atrapalhar os vizinhos. Foi feito um contrato com a igreja, por aluguel bem baixo – para não ficar parado, dizia o dono.

Embora, o numero de desempregados houvesse crescido, havia um sonho de comprar um terreno próprio. E ainda, com um projeto ousado, construir uma grande igreja – com o propósito de atender toda a comunidade. Idéias arrojadas para aquele momento.

O numero de desempregados aumenta. O proprietário do antigo cinema pede o prédio. Algumas famílias se distanciam. Uma grande recessão. O coração do Pastor, fica aflito, por não ver os problemas sendo solucionados. Alguns diziam que as orações não estavam sendo respondidas por culpa do Pastor. O Pastor por horas em oração pede que um milagre aconteça. Isso se repete varias vezes por longos meses. O Pastor ensinava a igreja que haveria um “escape” de Deus.

O Pastor, agora depressivo, desanimado, prepara-se para entregar o cinema antigo e ainda, prepara uma carta desistindo da continuidade do seu ministério pastoral. Aconselhado por alguns amigos, conversa com sua família, e prepara-se para retornar a antiga igreja, porem longe do ministério pastoral – sente-se inapto. Entende naquele momento que o “escape” de Deus é a sua saída.

Ao chegar na igreja, o Pastor, fica muito desiludido, ninguém compareceu a reunião de oração naquele dia. Guarda a carta na Bíblia. O Pastor e sua família, ajoelhados no altar, pedem direção do Espírito Santo para desistirem do ministério pastoral sobre aquela igreja, quando são interrompidos por um grupo de empresários cristãos da cidade. Eles, foram tocados por Deus para comprar e doar um terreno para aquela igreja. Estavam com todos os documentos nas mãos. Prontos para entregar, disseram que o terreno do lago, tinha um enorme e velho barracão, que poderia abrigá-los, até que construíssem a grande e arrojada igreja. Aos prantos, todos choravam, o Pastor, sua família e os empresários.

Como um milagre não vem pela metade, no domingo seguinte, mais de cem pessoas foram contratadas naquela semana, e estavam todos no altar agradecendo e testemunhando a sua fé em Cristo Jesus. Era um só choro de alegria. E alguns milagres começaram a acontecer. Alguns enfermos foram curados naquele domingo. Um casal que não podia ter filhos, apresentou os exames de pré-natal, seria uma menina. Um senhor, com idade avançada, levantou-se da cadeira de rodas, depois de mais de vinte anos de escravidão. Entre, outros milagres, que foram revelados com o passar do tempo. Uma alegria ressurgiu na igreja.

Houve um belíssimo casamento no final da semana seguinte. E o grupo de empresários cristãos trouxe mais uma boa noticia. Pois, haviam aprovado doar mais de cinqüenta por cento do custo inicial para a construção do novo templo. A alegria era contagiante naquele momento.

A igreja, entra na sua terceira década, com mais de oitenta famílias no seu rol de membros ativos. Aquelas crianças, do inicio, cresceram e se casaram, então com seus parentes agregados, que em quase todo inicio do mês havia pelo menos um batismo. E, a cada dois meses pelo menos um casamento. Houve um ano que tiveram setenta e quatro casamentos. Em uma ocasião, houve, três casamentos no mesmo dia. Por isso, o berçário precisou ser construído e ampliado.

Com uma excelente arrecadação, o sonho vai saindo do papel para se tornar uma grande realidade. Varias comissões são montadas. Vários projetos. Muitos relatórios.

Um dia, na reunião de oração, a filha do meio do mecânico, que havia engravidado na adolescência, chegou chorando desesperada – seu marido havia sido internado as pressas por um problema no coração. A igreja, convocada as pressas, pelo Pastor, passa uma semana inteira em vigílias de orações, vinte e quatro horas, todos os dias, até que ele sai do hospital. Ele já estava afastado da igreja, por mais de trinta anos. Havia uma boa lembrança do seu tempo de juventude guardado no coração dos mais velhos.

Após algumas visitas do Pastor em sua casa, o marido da filha do meio do mecânico, volta a freqüentar a igreja. Naquele momento, os testemunhos da sua esposa, fortaleceram muito, aqueles que por muitos anos estavam orando pela salvação de seus entes queridos. Deus havia respondido as suas orações – frase repetida em todos os cultos.

Numa reunião administrativa, foram convidados vários irmãos para compor uma das comissões para administrar as ultimas fases da construção da igreja. Entre eles, estava o marido da filha do meio do mecânico. E ainda, que precisariam levantar uma grande oferta para aquele tempo, era para um item muito importante do projeto e a igreja não tinha recurso financeiro naquele momento. Foi nesse momento que o marido da filha do meio do mecânico se levantou. Contou sobre o que Deus tinha feito na sua vida – o livramento da morte. Depois, disse que estava se aposentando e que recebera um valor muito alto pelos serviços prestados a uma empresa de transportes – era uma boa indenização, embora não tenha dito o valor. Mas, que Deus havia lhe tocado o coração e que estaria disposto a contribuir com aquele valor na sua totalidade. E com grande alegria o Pastor ora pela família que oferece aquela oferta. Entregue o cheque na presença de todos, alguns irmãos no mesmo instante sugere que este, seja o administrador da construção da igreja. A maioria concorda. Ele concorda e aceita. Dois milagres, diz o Pastor, o recurso e alguém capacitado para administrar.

Na reunião seguinte, o marido da filha do meio do mecânico, se levanta e inicia um discurso elogiando o ministério do Pastor naquela igreja. Lembra de todos os sacrifícios. Lembra ainda, que o Pastor vive de um misero salário e mora numa casa emprestada, de madeira e mal tratada. Sua família nuca reclamou. Não houve um só momento que o Pastor tenha pedido para si algo e que nem houve ocasião para se apoderar do dinheiro da igreja. Cita varias passagens bíblicas a favor do ministério do Pastor. O Pastor todo encabulado, recebe os elogios e agradece a todos.

O marido da filha do mecânico, apresenta a igreja um presente, em que ele diz ser o desejo de toda a igreja. Este presente consistia em uma viagem de trinta dias pelas cidades santas de Israel, por Roma, Grécia, França e Espanha. Hotel de luxo. Passagens aéreas de primeira. A igreja, atônita pula, grita louvores, uma grande euforia ocorre naquele momento. A esposa do Pastor, não para de chorar de tanta emoção. E, ainda confessa que seu marido tinha prometido uma viagem internacional, para esses paises desde da lua de mel. Pois, após o casamento, foram para o campo missionário e os anos se passaram sem que houve essa oportunidade por mais de trinta anos.

Após trinta e dois anos ininterruptos, foi um grande presente de reconhecimento do seu ministério pastoral. E naqueles dias, o marido da filha do meio do mecânico, tinha sido seu fiel companheiro – fiel escudeiro. Ao se aproximar das eleições para diáconos, o nome do marido da filha do meio do mecânico foi sugerido em todas as listas. Foi indicado, eleito e tomou posse o mais votado em toda a historia dessa igreja. Era uma benção. Os relatórios da construção efetivavam a boa escolha que a igreja havia feito. Por isso, na passagem daquele ano, seu nome foi cogitado para ser o vice-moderador (vice-presidente da igreja). Foi eleito.

O marido da filha do meio do mecânico, agora era o vice-moderador. Como tal, estava sempre ao lado do pastor. Onde estava um, o outro também estava – eram grandes amigos. Sua bondade era vista também pela família pastoral, pois quase que semanalmente os presenteava. Muitas vezes em dinheiro, com valores altos – chamava-os de “ofertas de amor”. E, nas sextas-feiras à noite, convidava o Pastor e a diretoria da igreja para um “churrasquinho” – tal era a sua hospitalidade. Ele havia feito vários jantares com os membros da diretoria da igreja, porém os fazia em separado – um por vez.

A base de crescimento desta igreja, tinha sido o acolhimento, aceitação e a hospitalidade, como expressão do amor de Cristo. Esta marca, tinha se espalhado por toda a região. Muitas igrejas, insistiam para que o Pastor, fosse pastoreá-los. Mas, ele sempre negou, pois havia prosperidade e muita paz nesse ministério. O Pastor era reconhecido entre os pastores da região como um excelente pastor. Era mentor de vários outros ministérios, dos quais espalhava seus valores.

Seu trabalho ministerial se destacava por atender os adolescentes daquela região de uma forma muito diferenciada. E os adolescentes amavam estar com o Pastor. Ele era muito querido. A igreja toda, refletia este amor por adolescentes. Programas especiais e evangelismos direcionados a esta faixa etária recebiam um alto investimento financeiro, que a igreja até então, considerava excelente – em função do resultado: vidas transformadas por Jesus. Nessa época, mais de duzentas famílias freqüentavam os cultos.

Numa reunião sobre finanças, o vice-moderador, levanta e questiona o Pastor sobre os gastos com os adolescentes. Põe em dúvida o resultado numérico do crescimento da igreja. Destaca que o final da construção passa a ser a prioridade da igreja e não mais campanhas ou programas evangelísticos – razão pela qual a realidade se sobrepõe aos sonhos. Como podemos chamar mais pessoas, se não temos onde coloca-las, concluiu olhando para os olhos do Pastor. O Pastor, responde, estou notando que as conversas estão mudando o seu rumo.

Numa sesta-feira, na casa do vice-moderador, durante o churrasco, era uma noite fria, bruscamente o Pastor é maltratado pelo vice-moderador. Ofende sua índole. Questiona o Pastor, dizendo que seus objetivos são camuflados, deixando claro que esta escondendo suas pretensões políticas, seus interesses financeiros ao desviar as verbas da igreja a supostos programas de evangelismos a adolescentes dos quais seus números não conferem com a realidade. O Pastor, ofendido e assustado, se retira da casa do vice-moderador. Volta para casa e comenta com sua esposa e filhos. Imediatamente, ajoelham e começam a orar pela igreja. Sentem o ataque do inimigo das nossas almas, trazendo trevas para uma igreja em crescimento.

Na manhã do dia seguinte, sábado, recebe uma ligação de uma das igrejas da região. Eles estão sem pastor a mais de três meses. Lembraram do Pastor. Buscaram em oração, mas só o nome dele era lembrado. Marcaram uma visita, naquele mesmo dia, ao final da tarde.

Conversaram até altas horas, oraram muito, juntos. O Pastor, não fez nenhum comentário sobre o que estava acontecendo, apenas dizia, que esta porta estava fechando por Deus, e abrindo uma nova em outro lugar. A igreja que o convidava naquele instante estava a vinte quilômetros dali.

No dia seguinte, no domingo, pela manhã, enquanto está entrando no estacionamento da igreja para celebrar o culto das 10 horas, alguns membros da igreja chorando, lhe aproximam contando que houve uma reunião da diretoria da igreja no sábado, em secreto, liderada pelo vice-moderador, para afastá-lo do pastoreio daquela igreja. O Pastor, calmamente lhes respondeu, que o Espírito Santo já havia lhe dado um “escape”. Por isso, devemos agradecer a Deus e adorá-lo, pois Ele nunca os havia abandonado. Alguns irmãos da diretoria da igreja, pediram para que o Pastor não entrasse no templo naquela manhã.

O Pastor voltando-se para o carro, voltou em silencio para sua casa. Chegando em casa, ligou para a igreja que havia visitado no sábado, aceitando o convite. E assim, assumiu um novo rebanho, porem, muitos irmãos, aos poucos foram saindo da igreja do terreno do lago, pois não suportavam as falas do vice-moderador. E a igreja do novo rebanho foi duas vezes maior que a igreja do lago.

Ao passar o tempo, a igreja do lago, ficou com duas famílias, a do vice-moderador e a do vizinho dele (porque era seu parceiro nos carteados das sextas-feiras). E o vice-moderador, se tornou um amargo Zelador.

Para Refletir:

Quando você esta vivendo um momento difícil da sua vida, você vê o “escape” de Deus?

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Autor:

Pastor Titular da Igreja Caminhar em Cristo em Curitiba/PR - Brasil

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