Publicado em Meditações

O zelador


O ZeladorEram dois jovens apaixonados. Os pais dela não aprovavam aquele namoro. Ela filha de uma família cristã em que Cristo, o amor ao próximo e respeito mutuo eram valores primordiais. Assíduos na igreja que ficava próximo de suas casas. Participavam e colaboravam com tudo. Ele, vindo de um lar desfeito, depois de ter passado por situações complicadas pela falta de recursos e por desequilíbrio financeiro, tinha nos olhos e no coração uma ambição não confessada.

Casaram, logo após saberem que ela estava grávida do seu primeiro filho. Imaginando talvez, como muitos, que casamento traz perdão para fornicação. E, por influencia dos pais dela, começou a freqüentar a igreja – batismo, escola bíblica, reuniões de oração, etc. E, assim foi por dois anos. Ela continuou a freqüentar com o casal de filhos, sem ele. Ele, conseguiu um emprego numa importante empresa de transporte. Iniciou a faculdade e em pouco tempo se tornou um chefe. Sua ambição era ser o gerente geral. Ele se esforçava para atingir esta meta. Usava todas as informações possíveis para denunciar seus superiores a diretoria. Esta era a sua estratégia (meios ilícitos) para crescimento dentro da empresa. Como todo bajulador, conseguiu o que queria.

O tempo passa. A esposa, sofria muito com o comportamento das crianças, que agora entravam na adolescência. Ele, como todo marido ausente não tinha nenhum conhecimento da vida de seus filhos. Na agenda dele, apenas os negócios e o dinheiro resultante das suas agiotagens é que tinham a prioridade. No carteado, que era a sua especialidade, fazia com que seus companheiros se endividassem. Até que sua filha engravidou.

Foi um corre-corre, para providenciar o casamento às pressas. Mas, o rapaz fugiu – escondido pela família, que não queria o casamento, pois priorizavam a conclusão do seu curso superior.

Agora, com mais uma “despesa”, ele pensou, resolvendo assumir a criação do neto. Sua, esposa, buscando em oração uma solução de Deus, ficava mais tempo na igreja – que gerou muito conflito nesse momento da vida do casal. A palavra “divorcio” foi repetida varias vezes. Até que o netinho nasceu. Uma nova alegria trouxe ao lar.

A filha, agora “mamãe”, resolveu arrumar um emprego e voltar aos estudos. Em seis meses, já tinha conquistado um namorado – menino sério, ela dizia. Esse é para casar. Saiu do trabalho e abandonou os estudos. No entanto, após saber que ela estaria grávida pela segunda vez, e o namorado “para casar” havia ido embora também, resolveu sentar e conversar com a esposa e com a filha. Ameaçando expulsar a filha e se divorciar, gritava e até parecia que teria um “ataque do coração”. Como quem não tem nenhum compromisso com a educação da filha, acusava insistentemente a esposa.

Se não bastasse, chega a noticia que seu filho mais velho estava preso por portar drogas – acusado de trafico. Mas, nesse caso foi mais fácil. Subornou alguns funcionários e em dois dias, seu filho estava solto. Para ele, o filho tinha toda a razão, e foi a policia num ato equivocado, não entendeu o que estava acontecendo.

A esposa, freqüentava a igreja. Orando todos os dias pela família.

Passaram trinta anos. Suas vidas tinham mudado muito. Ficaram com uma vida financeira bem estabelecida. Mas, o casamento continuava cada vez mais “frio” e “mecânico”. Em todas as crises, a palavra que se ouvia era “divorcio”. O filho mais velho, agora, trabalhava na área de informática numa loja que tinha aberto – era um bom comerciante. A filha, com três filhos, ainda buscava um marido. E, somente a mãe freqüentava a igreja nos domingos.

Porém, um dia, pela manha, o marido acorda com uma dor no peito. Vai ao hospital. E por pouco não houve um ataque fulminante do coração. Agora, doente, embora rebelde e ateu, passou a freqüentar a igreja por insistência da sua esposa. Com este susto, até mesmo os filhos passaram a freqüentar a mesma igreja.

A igreja, entendeu que era resposta de oração, e assim a esposa testemunhou em quase todas as reuniões. Em casa, as brigas continuavam, por causa dos testemunhos da mãe. E muitas duvidas eram “diagnosticadas” sobre o comportamento e as pregações do pastor.

Reclamava que o pastor dirigia as mensagens para ele. Eram “sermões acusatórios” – dizia ele extremamente irritado. Queria descobrir a quem reclamar – que esta acima deste pastor? Reclamava que ele tinha muito “sono” durante a pregação. Eu gosto de sermões mais dinâmicos, mais alegres, mais humorados …!!! Esse “pregadorzinho” só fala de demônio, pecado, inferno … será que não tem outro assunto?

Virando-se para a esposa perguntava: – Temos que nos arrepender do que? O pastor disse que temos que nos arrepender … arrepender do que? Ta faltando alguma coisa para você? Ta faltando dinheiro? Ta faltando comida? Ta faltando roupa? Por que é que eu tenho que me arrepender? Diga? … Eu não me arrependo de nada que fiz e de nada que tenho feito! Gente, preste atenção … eu não tenho pecados … não roubo, não bebo, não fumo, não minto …blá blá blá …

Esse monologo ocorria sempre, depois de cada culto. Os vizinhos, escutavam toda aquela gritaria. Depois, ele se trancava no quarto e ficava lá por horas. Ninguém o interrompia.

A igreja, estava construindo um templo novo. O projeto saia do papel após vinte anos de oração de toda a comunidade. Era um projeto arrojado. A comissão de construção apresentou para a igreja todos os detalhes financeiros. E, a partir de então desenvolveram campanhas para arrecadar recursos para dar inicio as obras. Ele e sua esposa foram convidados a participar da comissão de construção, em função da sua experiência administrativa e gerencial. Convite que foi aceito imediatamente após elogiar intensamente o pastor e toda a diretoria da igreja. Fez um breve discurso, dizendo-se honrado em participar de um projeto com uma visão tão definida e profunda da expansão do Reino de Deus.

Como sua família já tinha uma estabilidade financeira, resolveram contribuir financeiramente. Na época foi uma grande contribuição financeira – eram recursos que ele havia guardado por muito tempo. Mas, com a chegada da aposentadoria e das indenizações, viu que poderia contribuir sem afetar seus projetos domésticos.

Foi muito elogiado por esse ato por todos da igreja. Na eleição para diácono, seu nome foi lembrado e na historia da comunidade, foi o mais votado até então. Eleito, passou a usar um bonito terno azul combinando com o belo vestido da sua esposa. Ficou um casal muito bonito e simpático para a igreja. Ele fazia questão de estar na porta da igreja tanto no inicio das reuniões como no final delas. Ao final dos cultos de domingo, ele sempre tinha uma “oferta de amor” para o pastor – um envelope com uma porção de dinheiro. E o pastor, a diretoria da igreja e os diáconos, empolgados com ele, passaram a participar de um “churrasquinho” na casa dele, todas as sextas à noite, durante dois meses seguidos. Só parou, porque discutiu com o pastor, discordando sobre o tema “evangelização” – disse ao pastor que “isso” não é tão necessário nos nossos dias. A igreja deveria se concentrar mais na construção e não dispersar seus alvos. Devemos terminar o que começamos, dizia ele. Lembrando ao pastor, “nosso Deus, não é Deus de confusão”!

Seu “confronto” com o pastor, foi bem visto pelos diáconos. Resolveram fazer algumas reuniões de interesse da igreja, mas sem a presença do pastor. Essa idéia surgiu nos “churrasquinhos” de sexta, sem que o pastor soubesse. Por isso, na eleição para vice-moderador (vice-presidente), seu nome foi indicado, aprovado e eleito pela maioria.

Um mês após a eleição, trouxe alguns assuntos de interesse da comunidade que acabou agradando a toda a igreja. Mas, com uma grande surpresa, apresentou uma sugestão “anexa” que trouxe um mal estar para todos: “sugere a saída imediata do pastor”. A família pastoral ficou abalada, com um grande sentimento de traição pela comunidade, porque o servo do Senhor ali serviu por trinta e dois anos. Magoados. Chateados. Tristes. E, acusados injustamente são “tirados” da igreja naquela reunião acatando a sugestão do vice-moderador.

Assume, então o pastoreio, um pastor mais jovem – indicado por uma faculdade de teologia como um de seus melhores alunos. Recém casado. O pastor e a sua jovem esposa, começam a desenvolver uma programação diferenciada com os adolescentes da região. Seu pastoreio durou quatro meses. E novamente o pastor é substituído pelo agora “vice-moderador”. Alega a comunidade que a igreja não deve ser um lugar para festinhas ou “badaladinhas”, é um “local de santidade”. Expulsou também todos os adolescentes que vieram através destas programações.

Algumas famílias se reuniram na igreja e pediram uma orientação, sobre o que fazer com seus filhos. E como “vice-moderador” disse a todos presentes que procurassem outras igrejas, pois ali estavam dispostos a promover mais “qualidade” do que “quantidade”. Usou a expressão, “santidade” – quando se referia a qualidade. E, ainda, que a função do pastor seria a de trazer “boas” mensagens apenas, pois cuidar dos filhos caberia as famílias e não a igreja. Deste dia em diante, passaram a ter uma reunião de oração de quinze minutos antes de iniciar o culto de domingo, e não mais um culto para orações durante a semana. Suspendeu também todas as reuniões dos adolescentes. Suspendeu também todas as reuniões nas casas alegando não ter tempo.

Apregoava sobre “santidade”, como qualidade de vida cristã – desde que não trouxesse pessoas estranhas ao nosso meio. Dizia bem alto a todos, deixem os “mortos com os mortos” são ímpios. E a igreja, ouvia seus conselhos. E a cada dia as famílias dos adolescentes iam saindo da igreja. Foram mais de oitenta famílias que saíram nessa ocasião.

Por três anos a igreja esteve sem pastor. Houve um aniversário da igreja e um pastor foi convidado a pregar – estava passando pela cidade em férias, e já era conhecido de alguns membros. Sua pregação e sua maneira de tratar as pessoas chamaram a atenção da comunidade de tal forma que no final do ano, a diretoria, pressionada pela igreja, resolveu indicá-lo, embora o vice-moderador lhes avisassem que sairia se entrasse mais um pastor novamente. Ele alegava que sem pastor a igreja estaria bem melhor economicamente e funcionalmente. Mesmo assim, houve eleição. E a posse foi feita sem a presença do vice-moderador e a sua família, que se retiraram da igreja conforme suas ameaças.

A igreja mudou durante este pastoreio. Um pastor amoroso. Uma comunidade carente do amor de Deus e de pastoreio reagiu amando seu novo pastor. E a igreja tornou a crescer.

Passaram dois anos. O pastor e toda a diretoria, visitaram-no. Agora, não era mais vice-moderador, mas ainda era diácono da igreja – velho, doente, rebelde, rico e ateu. Conversaram muito. Daí, retornou com toda a família. Agora, com uma novidade – se candidatando a “zelador” – como dizia, o mais “humilde” de seus cargos dentro da igreja. Com todo orgulho fala da sua humildade.

Foi eleito e tomou posse das “chaves da igreja”. Em seu discurso de posse comparou-se ao apostolo Pedro, o zelador dos céus – segundo as suas palavras.

Com o poder das “chaves da igreja” proibia todas as reuniões fora da agenda. Numa das reuniões de oração, uma grande maravilha ocorreu, muitos jovens foram batizados no Espírito e a reunião se estendeu alem do estabelecido. Furiosamente, interrompeu a reunião e pediu para que todos se retirassem, pois na casa de Deus de haver “ordem e decência” e o tempo já havia se esgotado. Alem disso, disse ele, preciso dormir mais cedo – pois Deus ajuda quem cedo madruga. Esse ato acabou distanciando os jovens da igreja e algumas famílias saíram.

Numa das reuniões administrativas declarou que seu propósito como zelador era a “limpeza”. E, para exemplificar, contou o que tinha feito recentemente. Disse a todos, se se lembravam de um jovem desempregado e que se embriagava sempre, então, lhe dei um dinheiro e disse a ele, – não foi isso que você veio buscar? Pegue e suma daqui. E ele sumiu … (rindo). Assim eu fiz para aquela prostituta que apareceu grávida, e também com drogados, bêbados, crianças pedindo ajuda, aflitos, miseráveis, cegos … lembrando assim uma longa lista. Na sua conclusão salientou, – vocês todos entenderam, precisamos ser mais práticos, terminou dizendo – não precisamos e nem queremos mais esse tipo de gente aqui.

A igreja em silencio ouviu. Ficaram paralisados com aquelas palavras.

O pastor se levantou, e com a voz embargada, perguntou, “você já aceitou a Jesus como seu único e suficiente Salvador?”

Ele imediatamente reagiu, falando mais alto. Virando-se para a igreja e pedindo desculpas, pois ao seu olhar, deveria falar a “verdade” – disse mais, – meus irmãos “é a verdade que nos liberta”. E ainda tem mais, o pastor esta gastando o dinheiro da igreja com essa gente, que lucro teremos? O que ganhamos em ajudar essas pessoas que são um peso para a sociedade? Porque o governo não cuida delas? Desprezando a presença do pastor, disse a igreja: – Vamos viver este sonho? Esta ilusão? E depois citou duas famílias da igreja que não estavam sendo atendidas, e passavam por necessidades financeiras por desleixo do pastor.

O pastor, nesse momento tentou interrompe-lo, dizendo que as famílias citadas não são membros da igreja e que são alvos de ajuda – esse era o assunto da reunião. Mas, com muita astúcia, não deixou o pastor terminar. Dominando a reunião continuou.

– Por que devemos gastar com essas besteiras de “evangelismos”? Vamos cuidar do nosso rebanho, como diz na Bíblia! Jesus mesmo disse, deixem que os outros cuidem dos pobres… nem mesmo ele quis cuidar … não e verdade?

Nesse momento, com lagrimas nos olhos, o pastor se levantou e saiu da reunião. Assim, naquele dia, o pastor e muitas famílias saíram da igreja. Muitas famílias saíram depois dessa reunião. E, no dia seguinte, foi feita uma nova eleição, e agora ele não só era o zelador, mas também, o novo vice-moderador.

E depois disso, a igreja passou a se reunir somente uma vez por semana – domingo às 10 horas. Reúnem-se apenas com os que ficaram, sua família e do seu vizinho (que também é seu parceiro no carteado de sexta a noite).

Agora esta “igreja” esta limpa, sem ninguém para sujar.

Para refletir:

Como esta a sua igreja? Limpa?

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Autor:

Pastor Titular da Igreja Caminhar em Cristo em Curitiba/PR - Brasil

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